Técnica
Um Passeio com Primos e Outros Caras Bacanas
Introdução
A infinitude dos números primos é um fato conhecido desde a Antiguidade, cuja demonstração mais célebre remonta ao argumento clássico de Euclides.
Teorema 1. [Euclides] Existem infinitos primos.
Prova. Suponha por absurdo que haja um número finito de primos e sejam \(p_1, p_2, \ldots, p_k\) todos os primos. Considere o número \(N=p_1p_2\ldots p_k + 1\) e observe que, pelo teorema fundamental da aritmética, \(N\) possui algum fator primo \(p_j\). Mas então \(p_j\) divide \(N-p_1\cdot p_2 \ldots p_k = 1\), um absurdo. ◻
E se quisermos provar que existem infinitos primos em uma certa progressão aritmética? Por exemplo, será que existem infinitos primos da forma \(4k+1\)? A resposta é afirmativa e é possível adaptar a ideia de Euclides!
Teorema 2. Existem infinitos números primos da forma \(4k+1\), com \(k \in \mathop{\mathrm{\mathbb{Z}}}\).
Prova. Suponha por absurdo que haja um número finito de primos e sejam \(p_1, p_2, \ldots, p_k\) todos os primos congruentes a \(1\) módulo \(4\). Considere o número \[N=(p_1p_2\ldots p_k)^2 + 1.\] Sabemos que todo número da forma \(x^2+1\) com \(x>1\) possui um fator primo congruente a \(1\) módulo \(4\). Logo, \(N\) deve possuir algum fator primo \(p_j\). Mas então \(p_j\) divide \(N-(p_1p_2\ldots p_k)^2=1\), um absurdo. ◻
Um questionamento interessante é se é possível generalizar as ideias das soluções acima para mostrar que existem infinitos primos em uma progressão aritmética mais geral, da forma \(ak+b\) com \(a\) e \(b\) inteiros fixados tais que \(\text{mdc}(a,b)=1\)? Note que a condição de \(a\) e \(b\) serem primos entre si é necessária, pois do contrário qualquer fator comum de \(a\) e \(b\) dividiria \(ak+b\).
A resposta para essa pergunta é afirmativa e é o famoso teorema de Dirichlet, provado em \(1837\).
Teorema 3 (Dirichlet, 1837). Sejam \(a\) e \(b\) inteiros positivos com \(\text{mdc}(a,b)=1\). Existem infinitos números primos da forma \(ak+b\), com \(k \in \mathop{\mathrm{\mathbb{Z}}}\).
As principais demonstrações desse teorema utilizam variáveis complexas e não vão na linha dos argumentos apresentados acima.
O objetivo deste material é, inicialmente, apresentar alguns contextos em que os argumentos utilizados nas demonstrações dos Teoremas 1 e 2 se mostram particularmente interessantes. Em seguida, mudamos ligeiramente o foco para discutir resultados sobre os fatores primos de sequências mais gerais de inteiros. Por fim, comentamos alguns aspectos relevantes relacionados à distribuição dos números primos.
Primos em Uma Progressão Aritmética
Nesta seção discutiremos de modo mais aprofundado alguns pontos por trás das demonstrações de Euclides e do caso \(4k+1\) apresentadas acima.
Para adaptar as ideias para o caso \(ak+b\), podemos procurar um polinômio \(f(x) \in \mathop{\mathrm{\mathbb{Z}}}[x]\) para o qual \(f(m)\) possua algum fator da forma \(ak+b\) para todo \(m\) suficientemente grande. No caso da prova de Euclides, como não temos restrições para o primo, usamos simplesmente \(f(x)=x+1\). Já no segundo caso, foi fundamental escolher \(f(x)=x^2+1\).
Se existisse um número finito de primos da forma \(ak+b\), digamos \(p_1, p_2, \ldots, p_t\) e se existisse tal \(f\) com a propriedade de que, para \(m\) suficientemente grande, \(f(m)\) sempre possui algum fator da forma \(ak+b\), poderíamos tomar \[N=f((p_1p_2\ldots p_t)^\ell),\] com \(\ell\) suficientemente grande de modo que \(N>1\). Pela propriedade de \(f\), concluiríamos que \(N\) deve possuir algum fator primo \(p_j\). Dessa forma, lembrando que \(x-y \mid f(x) - f(y)\), concluímos que \(p_j\) também divide \(f((p_1p_2\ldots p_k)^\ell)-f(0)=N-f(0)\) e, portanto, \(p_j\) divide \(f(0)\). Isso em princípio não necessariamente produz um absurdo, mas se encontrarmos \(f\) tal que \(f(0)=1\), resolvemos nosso problema chegando a uma contradição.
Uma outra opção seria encontrar \(f\) tal que, para \(m\) suficientemente grande, todos os fatores primos de \(f(m)\) sejam congruentes a \(b\) módulo \(a\), à exceção, possivelmente, de uma quantidade finita de primos, como ocorre em \(f(x)=x^2+1\), para o caso \(4k+1\). De fato, tomando \(m_\ell=(Pp_1p_2\ldots p_t)^{\ell}\), em que \(P\) é o produto dos primos que são possíveis exceções, observe que, para \(\ell\) suficientemente grande, os expoentes da fatoração em primos de \(f(m_\ell)\) estão limitados pelo expoente do termo independente \(f(0)\) (podemos supor \(f(0) \ne 0\), tomando \(f\) irredutível em \(\mathop{\mathrm{\mathbb{Z}}}[x]\)). Isso significa que a sequência \((a_\ell)\) definida por \(a_\ell=|f(m_\ell)|\) é limitada. Porém, para \(f\) não constante e \(\ell\) arbitrariamente grande, ela deveria “explodir”.
A principal dificuldade dessas abordagens reside, em geral, na construção de polinômios com as propriedades desejadas. Ainda assim, essa ideia pode ser explorada em outros contextos. Encerramos a discussão apresentando um caso particularmente interessante em que tal abordagem é possível, a saber, a existência de infinitos primos da forma \(nk+1\), para um inteiro positivo fixo \(n\). A demonstração utiliza a noção de polinômios ciclotômicos. Para saber mais a respeito, veja [4].
Teorema 4. Seja \(n\) um inteiro positivo. Existem infinitos números primos da forma \(nk+1\), com \(k \in \mathop{\mathrm{\mathbb{Z}}}\).
Prova. Suponha que haja um número finito de primos congruentes a \(1\) módulo \(n\) e sejam \(p_1, p_2, \ldots, p_k\) estes primos. Defina \(a=(np_1p_2\ldots p_k)^{\ell}\). Para definir o polinômio \(f\), precisaremos recorrer aos polinômios ciclotômicos. Seja \(\phi_n(x)\) o \(n\)-ésimo polinômio ciclotômico. Vamos mostrar que \(\phi_n(a)\) possui um fator primo congruente a \(1\) módulo \(n\). Isso produz a contradição desejada, pois argumentando como anteriormente, se \(q\) é um fator de \(\phi_n(a)\) congruente a \(1\) módulo \(n\), teremos que \(q \mid a\) e, como \(a = a - 0 \mid \phi_n(a) - \phi_n(0)\), concluímos que \(q \mid \phi_n(0)\), porém sabemos que \(|\phi_n(0)|=1\).
Na verdade, vamos mostrar algo mais forte: todo fator primo de \(\phi_n(a)\) é congruente a \(1\) módulo \(n\). Observe primeiramente que podemos tomar \(\ell\) suficientemente grande de modo que \(|\phi_n(a)|>1\), para garantir que \(\phi_n(a)\) tem pelo menos um fator primo. Seja então \(q\) um fator primo de \(\phi_n(a)\). Sabemos das propriedades de polinômios ciclotômicos que \[\prod_{d|n}\phi_d(x) = x^n - 1.\] Em particular, para \(x=a\), temos que \(q \mid a^n - 1\) e então, para mostrar que \(q\) é congruente a \(1\) módulo \(n\), é suficiente verificar que \(\text{ord}_q(a)=n\), pois, como pelo teorema de Fermat temos \(a^{q-1} \equiv 1\pmod{q}\), segue que \(q \equiv 1 \pmod n\).
Suponha que \(\text{ord}_q(a)=h \ne n\). Como \(q\mid a^n - 1\), temos que \(h \mid n\). Logo, a equação anterior implica que \(x^n - 1=(x^h - 1)\phi_n(x)p(x)\) para algum polinômio \(p(x)\). Analisando módulo \(q\), podemos escrever \(x^n - a^n \equiv (x^h - a^h)\phi_n(x)p(x) \pmod{q}\). Pela fatoração única em \(\mathop{\mathrm{\mathbb{Z}}}_q\), podemos cancelar um fator \((x-a)\) em ambos os lados, obtendo \[x^{n-1}+x^{n-2}a+\ldots+xa^{n-2}+a^{n-1}\] \[\equiv (x^{h-1}+x^{h-2}a+\ldots+xa^{h-2}+a^{h-1})\phi_n(x)p(x) \pmod{q}.\] Fazendo \(x=a\) e lembrando que \(q \mid \phi_n(a)\), concluímos que \(na^{n-1} \equiv 0 \pmod{q}\), um absurdo, pois \(q \mid a^n - 1\) e \(n \mid a\), de modo que \(\text{mdc}(na^{n-1},q)=1\). Isso conclui a demonstração. ◻
Fatores Primos de uma Sequência
Uma forma alternativa e bastante útil de interpretar as ideias anteriores consiste em evitar o argumento por contradição, isto é, em vez de supor que há apenas um número finito de primos de uma dada forma, buscamos construir explicitamente uma sequência \((a_n)\) com a seguinte propriedade: para cada termo \(a_n\), existe um primo \(p_n \equiv b \pmod{a}\) tal que \(p_n \mid a_n\) e \(p_n \notin \{p_1,\ldots,p_{n-1}\}\). Dessa forma, garantimos a produção sucessiva de novos primos da forma desejada.
Uma maneira natural de construir tal sequência é por meio de uma recorrência adequada do tipo \(a_{n+1}=f(a_n)\). Por exemplo, na demonstração do caso \(4k+1\), pode-se considerar a recorrência \[a_{n+1}=(a_1\cdots a_n)^2+1.\] Por indução, nota-se facilmente que \(a_{n+1}=a_n^3-a_n^2+1\), com \(a_1=5\). Dessa forma, teríamos \(f(x)=x^3-x^2+1\).
Diversas questões podem ser formuladas a respeito dos fatores primos de sequências de inteiros. Em muitos casos, é possível caracterizá-los, especialmente para sequências definidas por recorrências do tipo \(a_{n+1}=f(a_n)\), em que \(f\) é um polinômio bem compreendido.
Outra questão natural consiste em determinar se o conjunto dos divisores primos dos termos da sequência é infinito. Um resultado clássico relacionado a esse problema é o teorema de Schur.
Teorema 5. (Schur) Seja \(P(x) \in \mathop{\mathrm{\mathbb{Z}}}[x]\) um polinômio não constante. Então o conjunto dos fatores primos da sequência \((a_n)\), definida por \(a_n=P(n)\) é infinito.
Prova. Suponha que exista apenas um número finito de primos que dividem algum termo da sequência e sejam \(p_1, p_2, \ldots, p_k\) tais primos. Se \(P(0)=0\), então \(n\mid P(n)\) e o resultado é trivial. Suponha então \(P(0) = m \ne 0\) e defina \(n_\ell = (p_1p_2\ldots p_k)^{\ell}\), com \(\ell > \max\{\nu_{p_1}(m), \ldots, \nu_{p_k}(m)\}\). Observe que \(\nu_{p_i}(a_{n_\ell})=\nu_{p_i}(m)\), o que implica que \(|a_{n_\ell}| \le m\), já que os fatores primos de \(a_{n_\ell}\) pertencem ao conjunto \(\{p_1, p_2, \ldots, p_k\}\). Mas tomando \(\ell\) arbitrariamente grande, como \(P\) é não constante, \(|P(n_\ell)|=|a_{n_{\ell}}|\) fica eventualmente maior que \(m\), um absurdo. ◻
Outro resultado relacionado é o teorema de Kobayashi.
Teorema 6. (Kobayashi) Seja \((x_n)\) uma sequência de inteiros positivos ilimitada cujo conjunto dos divisores primos é finito. Então, para todo inteiro \(y \ne 0\), o conjunto dos fatores primos da sequência \((x_n+y)\) é infinito.
Sua demonstração original recorre a ferramentas de geometria algébrica. Entretanto, existe uma abordagem alternativa baseada no teorema de Thue.
Teorema 7. (Thue) Seja \(d \ge 3\) e \(k \in \mathop{\mathrm{\mathbb{Z}}}\). Se \(f\) é um polinômio homogêneo irredutível de grau \(d\), então existe uma quantidade finita de soluções inteiras para a equação \(f(x,y)=k\).
Embora o teorema de Thue ainda não seja elementar por utilizar teoria de aproximações diofantinas, ele permite uma prova relativamente simples do teorema de Kobayashi. Finalizamos a seção apresentando tal demonstração.
Prova do teorema de Kobayashi. Escreva \(a_n=ax^3\) e \(a_n + t = by^3\), com \(a, b\) livre de cubos. Se \((a_n)\) e \((a_n+t)\) possuem uma quantidade finita de divisores primos, então há uma quantidade finita de possibilidades para \(a\) e \(b\), de modo que há uma quantidade finita de equações da forma \(by^3-ax^3=t\). Mas então, pelo teorema de Thue, temos uma quantidade finita de soluções para essas equações e, em particular, uma quantidade finita de possibilidades para \(x\), o que contradiz o fato de \((a_n)\) ser ilimitada. ◻
Exercícios
Problema . (OBM 2016 - N2) Seja \(a_0=a>1\) um inteiro e, para \(n \ge 0\), defina \(a_{n+1}=2^{a_n}-1\). Mostre que o conjunto dos divisores primos dos termos da sequência \(a_n\) é infinito.
Problema . (IMO SL 2009) Seja \(f\) uma função não-constante dos inteiros positivos nos inteiros positivos tal que \(a-b\) divide \(f(a)-f(b)\) para quaisquer inteiros positivos \(a\), \(b\) distintos. Prove que existem infinitos números primos \(p\) tais que \(p\) divide \(f(c)\) para algum inteiro positivo \(c\).
Problema . (OIMU 2003) Prove que se \(P(x)\) é um polinômio não constante com coeficientes inteiros, então existe \(n\) inteiro tal que \(P(n)\) tem mais de \(2003\) fatores primos distintos.
Problema . (Ibero 2019) Sejam \(a_1, a_2, \dots, a_{2019}\) inteiros positivos e \(P\) um polinômio com coeficientes inteiros tal que, para todo o inteiro positivo \(n\), \(P(n)\) divide \(a_1^n + a_2^n + \dots + a_{2019}^n\). Prove que \(P\) é um polinômio constante.
Problema . (Irã 2011) Seja \(P(x)\) um polinômio não nulo com coeficientes inteiros. Prove que existem infinitos primos \(q\) tais que \(q\) divide \(2^n+P(n)\) para algum \(n\) natural.
Problema . (TST Irã 2024) Seja \(\{a_n\}\) uma sequência de números naturais tal que todo número primo maior que \(1402\) divide algum termo da sequência. Prove que o conjunto dos divisores primos dos termos da sequência \(\{b_n\}\), definida por \(b_n = a_1 a_2 \cdots a_n - 1\), é infinito.
Problema . (OBMU 2017) Fixados os inteiros positivos \(a\) e \(b\), mostre que o conjunto dos divisores primos dos termos da sequência \(a_n=a\cdot 2017^n+b \cdot 2016^n\) é infinito.
Sobre a Distribuição dos Primos
Nesta seção vamos apresentar demonstrações para o postulado de Bertrand e para provar o teorema de Chebyshev. A prova do postulado de Bertrand apresentada é devida a Erdős e os dois lemas utilizados também servem para provar o teorema de Chebyshev.
No que segue, todos os logaritmos são na base natural. Sabendo da existência de infinitos números primos, torna-se natural procurar entender a respeito da distribuição dos primos nos inteiros positivos. Mais precisamente, dado um inteiro positivo \(n\), definindo \(\pi(n)\) como a quantidade de números primos no conjunto \([n]=\{1,2,3,\ldots,n\}\), seria interessante entender o comportamento assintótico desta função. O teorema de Chebyshev responde essa pergunta, provando que \(\pi(n)=\Theta(\frac{n}{\log n})\).
Teorema 8. (Chebyshev) Existem constantes positivas \(c<C\) tais que para todo \(x \ge 2\) vale \[c\frac{x}{\log x} < \pi(x) < C \frac{x}{\log x}.\]
Outra pergunta bastante natural é a respeito do comportamento da quantidade de números primos em um certo intervalo \([f(n),g(n)]\). Por exemplo, como consequência do teorema de Chebyshev, podemos facilmente concluir que a quantidade de primos no intervalo \([n,an]\), com \(a>1\) é pelo menos \[\pi(an) - \pi(n) \ge c\frac{an}{\log (an)} - C\frac{n}{\log n} = \big(ca-C+o(1)\big)\frac{n}{\log n}.\] Logo, quando \(a>C/c\), conseguimos muitos primos em intervalos da forma \([n,an]\) para \(n\) suficientemente grande. Na demonstração apresentada, teremos \(C=5\log 2\) e \(c=\frac{\log2}{2}\), o que implica \(a>10\). Mas para valores menores de \(a\), em princípio sequer sabemos se podemos garantir a existência um primo no intervalo para \(n\) grande. O postulado de Bertrand responde essa pergunta quando \(a=2\).
Teorema 9. (Postulado de Bertrand) Seja \(n\) um inteiro positivo. Existe um primo \(p \in [n,2n]\).
Antes de provar os Teoremas 8 e 9, vamos enunciar dois lemas necessários para prová-los.
Lema 1. Sejam \(n \in \mathop{\mathrm{\mathbb{Z}}}_{>0}\) e \(p\) um número primo. Seja \(\theta_p\) o inteiro tal que \(p^{\theta_p} \le 2n < p^{\theta_p+1}\). Então1 \[\nu_p\left(\binom{2n}{n}\right) \le\theta_p.\] Em particular, se \(p>\sqrt{2n}\), então o expoente de \(p\) em \(\binom{2n}{n}\) é \(1\), e se \(\frac{2n}{3} < p < n\), então \(p\) não divide \(\binom{2n}{n}\).
Prova. Observe que \[\begin{aligned} \nu_p\left(\binom{2n}{n}\right)&=\nu_p((2n)!)-2\nu_p(n!) \\ &=\sum_{i=1}^{\theta_p}\left(\left\lfloor{\frac{2n}{p^i}}\right\rfloor-2\left\lfloor{\frac{n}{p^i}}\right\rfloor\right)\le \theta_p, \end{aligned}\] pois cada parcela é sempre \(0\) ou \(1\). Se \(p>\sqrt{2n}\), temos que \(\theta_p=1\) e o resultado segue. Além disso, se \(\frac{2n}{3}<p<n\), é fácil ver que todas as parcelas são \(0\) e então \(p\) não divide \(\binom{2n}{n}\). ◻
Lema 2. Para todo inteiro positivo \(n\), temos \[\prod_{\substack{p \le n\\p\text{ primo}}}p \le 4^n.\]
Prova. A prova segue por indução em \(n\). Para \(n\) pequeno o resultado é claro. Suponha válido para todo \(k < n\). Se \(n\) é par, temos que \[\prod_{\substack{p \le n\\p\text{ primo}}}p = \prod_{\substack{p \le n-1\\p\text{ primo}}}p \le 4^{n-1} < 4^n.\] Suponha então \(n\) ímpar e seja \(n=2m+1\). Observe que \[\begin{aligned} \prod_{\substack{p \le n\\p\text{ primo}}}p &= \prod_{\substack{p \le m+1\\p\text{ primo}}}p\cdot\prod_{\substack{m+2 \le p \le 2m+1\\p\text{ primo}}}p \\ &\le 4^{m+1}\binom{2m+1}{m+1} \le 4^{m+1}2^{2m}=4^n. \end{aligned}\] A primeira desigualdade segue da hipótese de indução e do fato de todos os primos \(p\) entre \(m+2\) e \(2m+1\) dividirem \(\binom{2m+1}{m+1}\). A cota no binomial segue de \(\sum_{i=1}^{2m+1} \binom{2m+1}{i}=2^{2m+1}\) e de \(\binom{2m+1}{m+1}=\binom{2m+1}{m}\). ◻
Com esses dois resultados em mãos, podemos provar os Teoremas 8 e 9. Ressaltamos que a prova do teorema de Bertrand apresentada é devida a Paul Erdős.
Prova do Teorema 9. Suponha que exista \(n \ge 2\) para o qual não há primos no intervalo \([n,2n]\). Pelas Afirmações 1 e 2, junto com o fato de que até \(\sqrt{2n}\) temos no máximo \(\sqrt{2n}/2 - 1\) primos e que \(p^{\theta_p} \le 2n\), temos que \[\begin{aligned} \binom{2n}{n} &\le \prod_{\substack{p \le \sqrt{2n}\\p\text{ primo}}} p^{\theta_p} \cdot \prod_{\substack{\sqrt{2n}<p\le\frac{2n}{3}\\p\text{ primo}}}p \\ &=\prod_{\substack{p \le \sqrt{2n}\\p\text{ primo}}} p^{\theta_p} \cdot \prod_{\substack{p\le\frac{2n}{3}\\p\text{ primo}}}p\le(2n)^{\sqrt{2n}/2-1}\cdot4^{2n/3}. \end{aligned}\]
Por outro lado, pela relação de Stifel, temos que \[\begin{aligned} n\binom{2n}{n}&=n\binom{2n-1}{n}+n\binom{2n-1}{n-1} \\ &>(1+1)^{2n-1}, \end{aligned}\] o que implica \(\binom{2n}{n} > \frac{2^{2n-1}}{n}\). Concluímos então que \[\frac{2^{2n-1}}{n}<(2n)^{\sqrt{2n}/2-1}\cdot4^{2n/3} \iff 2^{2n/3} < (2n)^{\sqrt{n/2}}.\] Tomando logaritmo na base \(2\), ficamos com a desigualdade \(2\sqrt{2n}<3\log_2(n)+3\), que é falsa para todo \(n \ge 50\). Portanto, para finalizar, basta verificar até \(2\cdot50=100\) e não é difícil observar que os primos \(2,5,11,23,47,79,101\) cobrem todos os intervalos da forma \([n,2n]\) com \(1 \le n \le 50\). ◻
Agora vejamos a demonstração do teorema de Chebyshev.
Prova do Teorema 8. Basta mostrar uma cota inferior do tipo \[\pi(x) \ge c\frac{x}{\log x}\] para \(x=2n\), pois \(\pi(2n-1)=\pi(2n)\) e \(\frac{x}{\log x}\) é crescente para \(x \ge 3\). Vamos cotar a quantidade de números primos menores ou iguais a \(2n\) pelos primos que dividem \(\binom{2n}{n}\). Pela Afirmação 1, temos que \[\begin{aligned} \label{eq:4} \binom{2n}{n}\le&\prod_{\substack{p \le 2n\\p\text{ primo}}} p^{\theta_p}\le (2n)^{\pi(2n)} \\ \Rightarrow &\pi(2n) \ge \dfrac{\log\binom{2n}{n}}{\log (2n)} \ge \dfrac{n\log 2}{\log (2n)}, \end{aligned}\] em que a última desigualdade segue de \[\begin{aligned} \binom{2n}{n}&=\binom{n}{0}^2+\ldots+\binom{n}{n}^2\\ &\ge\binom{n}{0}+\ldots+\binom{n}{n}=2^n. \end{aligned}\]
Portanto, concluímos que \[\pi(2n) \ge \dfrac{n\log 2}{\log (2n)} \Rightarrow \pi(x) \ge \frac{\log2}{2}\frac{x}{\log x}.\] Resta provarmos a cota superior. Veja que também temos \[\binom{2n}{n}=\binom{n}{0}^2+\ldots+\binom{n}{n}^2<\left(\binom{n}{0}+\ldots+\binom{n}{n}\right)^2=2^{2n}.\] Portanto, em particular, o produto dos primos entre \(n\) e \(2n\) é menor que \(2^{2n}\) e então \[\begin{aligned} n^{\pi(2n)-\pi(n)}<& \prod_{\substack{n<p\le 2n\\p\text{ primo}}}p<2^{2n}\\ \iff &\pi(2n)-\pi(n) <\frac{2n\log 2}{\log n}, \end{aligned}\] o que implica, por indução, que \[\pi(2^{k+1}) \le \frac{5 \cdot 2^k}{k}.\] Finalmente, se \(2^k < x \le 2^{k+1}\), temos que \[\pi(x) \le \pi(2^{k+1}) \le \frac{5\cdot 2^k}{k} \le 5\log2\frac{x}{\log x}.\qedhere\] ◻
Para concluir esta seção, apresentamos o celebrado teorema dos números primos, provado independentemente por Jacques Hadamard e Charles Jean de la Vallée Poussin, em 1896. Sua demonstração usual também utiliza variáveis complexas e não será apresentada aqui.
Teorema 10. (Teorema dos Números Primos) Tem-se que \[\lim_{x \to \infty} \frac{\pi(x)}{x/\log x}=1.\]
Em outras palavras, para todo \(\varepsilon>0\), existe \(n_0>0\) tal que se \(n \ge n_0\), então \[(1-\varepsilon)\frac{n}{\log n} < \pi(n) < (1+\varepsilon)\frac{n}{\log n}.\] Em particular, para todo \(n \ge n_0\), temos \(\Theta(\frac{n}{\log n})\) primos no intervalo \([n, (1+\delta)n]\), com \(\delta>0\) fixado.
A Soma dos Inversos dos Primos
Nesta seção apresentaremos uma demonstração sobre o fato bastante útil de que a série da soma dos inversos dos primos \[\frac{1}{2}+\frac{1}{3}+\frac{1}{5}+\ldots\] é divergente.
Antes de apresentarmos o argumento, será útil discutir a demonstração de Erdős para a infinitude dos números primos. Essa prova baseia-se, essencialmente, na noção de densidade nos inteiros positivos, cuja ideia pode ser descrita da seguinte forma: dado um inteiro positivo \(M\), estimamos, em função de \(M\), quantos números no intervalo \([1,M]\) satisfazem determinada propriedade. Ao fazer \(M \to \infty\), buscamos compreender se há infinitos inteiros que a satisfazem (ou, alternativamente, que não a satisfazem).
Segunda prova do Teorema 1. Suponha que a quantidade de primos seja finita e sejam \(p_1, p_2, \ldots, p_k\). Fixado um inteiro \(M\), escreva cada inteiro \(m \in [1,M]\) na forma \(m=ax^2\), com \(a\) livre de quadrados. Observe que para \(a\) temos \(2^k\) possibilidades, pois cada \(p_i\) pode aparecer ou não na fatoração dele. Por outro lado, para \(x\) temos no máximo \(\sqrt{M}\) possibilidades. Dessa forma, concluímos que \(2^k\sqrt{M} \ge M\), o que equivale a \(2^{2k} \ge M\). Mas como \(M\) é qualquer, tomando \(M>2^{2k}\), temos um absurdo. ◻
Com a ideia da prova anterior em mente, podemos agora apresentar a demonstração de Paul Erdős de que a soma dos inversos dos primos diverge.
Teorema 11. A série \[\sum_{p\text{ primo}}\frac{1}{p}=\frac{1}{2}+\frac{1}{3}+\frac{1}{5}+\ldots\] diverge.
Prova. Suponha que a série converge. Então existe \(N>0\) tal que \[\sum_{\substack{p \ge N \\p\text{ primo}}}\frac{1}{p}<\frac{1}{2}.\] Considere a partição dos naturais \(\mathbb{N}=A \cup B\), em que \(B=\mathbb{N}\setminus A\) e \[A=\{n \in \mathbb{N} : p \mid n,\ p\text{ primo}\Rightarrow p<N\}.\]
Sendo \(M \in \mathbb{N}\) e \(n \le M\), note que o expoente de um fator primo na fatoração de \(n\) é no máximo \(\frac{\log M}{\log 2}\). Portanto, a quantidade de inteiros positivos que utilizam apenas fatores menores que \(N\) é \[|A \cap [1,n]| \le \Big(1+\frac{\log M}{\log 2}\Big)^{\pi(N)}.\]
Por outro lado, todo elemento de \(B\) possui um fator primo maior ou igual a \(N\) e então \[|B \cap [1,M]| \le \sum_{\substack{p \ge N\\p\text{ primo}}} \le M\sum_{\substack{p \ge N \\p\text{ primo}}}\frac{1}{p}<\frac{M}{2}.\] Dessa forma, temos que \[\begin{aligned} M&=|A\cap[1,M]|+|B\cap[1,M]|\\ &<\Big(1+\dfrac{\log M}{\log 2}\Big)^{\pi(N)}+\dfrac{M}{2}, \end{aligned}\] e então \[\dfrac{M}{2}<\Big(1+\dfrac{\log M}{\log 2}\Big)^{\pi(N)},\] que é claramente absurdo para \(M\) suficientemente grande. ◻
Exercícios
Problema . (IMC 2012) O conjunto dos inteiros positivos \(n\) tais que \(n!+1\) divide \((2012n)!\) é finito ou infinito?
Problema . (IMO SL 2007) Encontre todas as funções sobrejetivas \(f: \mathbb{N} \to \mathbb{N}\) tais que, para quaisquer \(m,n \in \mathbb{N}\) e para todo primo \(p\), o número \(f(m+n)\) é divisível por \(p\) se, e somente se, \(f(m)+f(n)\) é divisível por \(p\).
Problema . Sejam \(k\) e \(n\) inteiros positivos com \(n>2^k\). Prove que os \(k\) primeiros números que são maiores do que \(n\) e primos relativos com \(n!\) são primos.
Problema . (Sylvester-Schur) Sejam \(n,k\in \mathop{\mathrm{\mathbb{Z}}}_{>0}\), \(n \ge 2k\). Então \(\binom{n}{k}\) tem um fator primo \(p>k\).
Problema . (Erdős-Pálify) Sejam \(a\) e \(b\) inteiros positivos tais que quando os dividimos por qualquer primo \(p\), o resto de \(a\) é sempre menor ou igual ao resto de \(b\). Prove que \(a=b\).
Problema . Sejam \((p_n)\) a sequência dos primos. Prove que \[\Big(1-\frac{1}{p_1}\Big)\cdot\Big(1-\frac{1}{p_2}\Big)\cdot\Big(1-\frac{1}{p_3}\Big)\cdot\ldots=0.\]
Problema . Seja \(\lambda > 1\) um número real. Denote por \(p_n\) o \(n\)-ésimo número primo em ordem crescente. Prove que a sequência \((\lfloor \lambda p_n \rfloor)\) possui infinitos divisores primos.
Problema . (Rioplatense 1999) Sejam \(p_1, p_2, \ldots, p_k\) \(k\) números primos distintos. Consideramos todos os inteiros positivos que utilizam apenas esses primos (não necessariamente todos) em sua fatoração em primos e organizamos esses números em ordem crescente, formando uma sequência infinita \(a_1 < a_2 < \cdots < a_n < \cdots\). Prove que, para todo número \(c\), existe um \(n\) tal que \(a_{n+1} - a_n > c\).
Problema . (CIIM 2024) Dado um inteiro positivo \(n\), seja \(\varphi(n)\) o número de inteiros positivos menores ou iguais a \(n\) que são relativamente primos com \(n\). Determine todos os inteiros positivos \(k\) para os quais existem inteiros positivos \(1 \le a_1 < a_2 < \dots < a_k\) tais que \[\left\lfloor \frac{\varphi(a_1)}{a_1} + \frac{\varphi(a_2)}{a_2} + \dots + \frac{\varphi(a_k)}{a_k} \right\rfloor = 2024.\]
Bibliografia
[1] David Galvin. Erdos’s proof of bertrand’s postulate. 2013.
[2] FB MARTINEZ, CG MOREIRA, N Saldanha, and Eduardo Tengan. Teoria dos números: um passeio com primos e outros números. IMPA, Rio de Janeiro, 5a edição, 2018.
[3] CJ Quines. Sledgehammers in number theory, June 2023. Manuscript.
[4] Carlo Sanna. A survey on coefficients of cyclotomic polynomials. Expositiones Mathematicae, 40(3):469–494, 2022.

Rafael Filipe dos Santos é natural do Rio de Janeiro, formado em Engenharia da Computação pelo Instituto Militar de Engenharia (IME) e mestre em Matemática Pura pelo Instituto de Matemática Pura e Aplicada (IMPA), onde cursa doutorado em Combinatória. Participou de olimpíadas de matemática, com medalha de bronze na IMO e duas de ouro na IMC. Hoje atua na Comissão Nacional de Olimpíadas da OBM.
\(\nu_p(n)\) é o maior número \(m\) tal que \(p^m\) divide \(n\). (N. do E.)↩︎