Memória
Maria Augusta de Araújo Moreno: Uma Professora Modernizadora
Como temos acompanhado, a Revista de Matemática Hipátia tem trazido uma seção com textos que valorizam a Memória de personagens que atuaram no Instituto de Matemática e Estatística da UFBA e, neste número, apresentaremos um artigo a respeito da professora aposentada Maria Augusta de Araújo Moreno, que esteve ligada ao Instituto desde sua formação inicial em Matemática. A parte principal do conteúdo que trazemos aqui foi produzida a partir da textualização de trechos de uma entrevista concedida pela própria professora e de entrevistas com ex-alunos do Colégio de Aplicação que a mencionaram muito frequentemente como uma professora marcante e modernizadora ao rememorarem os anos que estudaram na Instituição1.
Maria Augusta de Araújo Moreno nasceu em 1934, em Ilhéus, mudando-se com a família para Salvador poucos meses após seu nascimento. Cursou o primário nas Escolas Ana Neri e Getúlio Vargas, o curso ginasial no Ginásio Estadual Severino Vieira, e o científico no Colégio Estadual da Bahia. Cursou Matemática na UFBA de 1954 a 1957. Segundo ela mesma conta, logo após sua graduação foi chamada a atuar no Colégio de Aplicação da Universidade da Bahia (CA)2, inicialmente substituindo a professora de Matemática do 3o ano científico3 que estava grávida e, posteriormente, como professora titular da disciplina.
Em 1959 foi para a Faculdade de Filosofia da Universidade de São Paulo, onde estudou topologia sob orientação de Omar Catunda e cursou disciplinas do mestrado com bolsa de pós-graduação. Ao retornar para a Bahia tornou-se professora assistente do Departamento de Matemática do Instituto de Matemática e Física (IMF)4, em 1961, onde ofereceu seminários, como o de Topologia Geral, em 1961.1, e disciplinas no Ensino Superior, como a de Topologia, em 1964.
No entanto, em função de uma lógica de distribuição do trabalho entre os professores do IMF, sob a liderança da professora Martha Maria de Souza Dantas, ela passa a integrar a equipe do Instituto comprometida com o projeto de modernização da Matemática no Ensino Secundário, ligado ao Centro de Ensino de Ciências da Bahia (CECIBA) e ao Colégio de Aplicação, juntamente com as colegas, Eliana Costa Nogueira, Norma Coelho Araújo, Neide Clotilde de Pinho e Souza, Eunice Guimarães (DIAS, 2002; MENEZES, 2015).
É nesse contexto de atuação, mais especificamente ligada ao Colégio de Aplicação, que a professora Maria Augusta destaca suas memórias como docente da UFBA e também é apontada nas memórias dos estudantes como uma referência de dedicação ao ensino da Matemática, celebrada como uma agente de modernização dos padrões de ensino da época.
Trazer essas memórias é uma tarefa importante na compreensão do papel do Instituto de Matemática e Estatística (IME) e de seus professores no processo de qualificação do Ensino Secundário na Bahia a partir da década de 1960, merecendo ser revisitadas e integrar a historiografia da Educação Matemática no estado, tendo o IME como uma instância de difusão e implementação de padrões modernos que internacionalmente vinham se estabelecendo naqueles anos.
O Colégio de Aplicação começou a funcionar em 1949 e tinha entre seus objetivos principais servir de espaço de prática didática para os estudantes dos cursos de licenciaturas da UFBA, tendo se tornado também um campo de experimentações educacionais, como costuma ser lembrado por vários de seus ex-alunos. O Colégio teve suas atividades encerradas em 1976 quando os professores da UFBA que ali atuaram foram realocados em outras atividades voltadas para o Ensino Superior em diferentes Unidades da Universidade, como conta a professora Maria Augusta:
[...] quando o Colégio de Aplicação acabou eu fui chamada pra ir pro Instituto de Matemática, porque todos professores tomaram seus destinos, então, pela minha capacidade, pela habilidade, ao invés de ir para a Educação, porque eu poderia ter ido pra Educação, eu fui para o Instituto de Matemática (MORENO, 2012, p. 8).
Com o retorno às atividades no Ensino Superior, a professora Maria Augusta seguiu ministrando disciplinas do Departamento de Matemática para os cursos da Universidade até abril de 1989, quando se aposentou como professora adjunta (MORENO, 2026).
A seguir, são apresentadas textualizações de trechos de entrevistas concedidas pela professora Maria Augusta e alguns de seus ex-alunos a respeito da atuação dela no Colégio de Aplicação, que foram organizadas por tópicos.
A chegada no Colégio de Aplicação
Eu tinha sido aluna do Curso de Matemática na UFBA na época da professora Martha Dantas, que coordenava o grupo que tinha uma proposta de criação de materiais ligados à Matemática Moderna. Depois de ter me formado em Matemática, ou melhor, antes mesmo de me formar, eu já comecei ensinar no Colégio de Aplicação. Porque eu substituí a professora Nilza (da Rocha Medrado dos Santos) no terceiro ano de Colégio porque ela estava grávida e precisava de um professor substituto. Dos alunos que estavam estagiando eu fui selecionada para começar a ensinar. Aí fiquei no Colégio de Aplicação até... — eu não lembro bem até que ano que eu fiquei — mas sempre, sempre... é... até os últimos anos do Colégio.
Como eu disse, eu comecei ensinar no terceiro ano, quer dizer, dei continuidade às minhas aulas de prática, não é?! Aquela parte ligada ao Curso de Matemática, depois estive dois anos fora, em São Paulo, na Faculdade de Filosofia com o professor Edson Faraco que ensinava Topologia, só depois voltei para a Bahia.
Martha Dantas me acompanhou a vida toda, na Faculdade, na indicação de cursos, foi ela quem me indicou e tudo, ela me... animou pra ir pro Colégio de Aplicação. Também me indicava para dar aulas particulares, então, os resultados que chegavam para ela eram tão bons que ela só fazia me indicar, só dizia assim: “pra ensinar só Maria Augusta”. Eu que já no meu tempo de ginásio dava banca, atuei dando muita aula particular. A pessoa me procurava e dizia assim: “olha, Dona Martha disse que se a senhora não ensinar, ninguém vai dar jeito, se a senhora não der jeito, ninguém dará mais jeito”.
A minha relação com ela era a melhor possível, porque eu sempre tive Martha em alto conceito, um conceito muito alto da pessoa dela e da professora... e, reciprocamente, ela sempre me prestigiou, como eu lhe disse, me indicando para diversas atividades não só particulares, como também para a Faculdade, ela me prestigiava muito, muito bom, muito bom entrosamento.
Martha foi a vários colóquios, sabe?! Portugal, França... Ela viu o que estava mudando na Matemática, como é que estavam mudando e... ela se pautou nisso e, juntamente com o professor Catunda, começaram a elaborar o material relativo à Matemática Moderna.
Sobre minha atuação como professora... eu era muito rigorosa, eu tinha uma... uma característica que eu apliquei no Colégio de Aplicação e no João Florêncio Gomes5, eu fazia teste todo santo dia, hoje eu dava a matéria, hoje eu dava o assunto, amanhã eu já aplicava o teste. Todo santo dia. São... eram perguntas bem simples, imediatas, se eu hoje falava sobre translação, explicava translação, dava exemplo, amanhã eu já anotava no teste, ditava, dividia a turma em quatro, sem que eles pudessem ver o que o outro estava fazendo, sem eles poderem pescar, né?! E... eles ficavam a princípio meio tensos porque achavam que não ia dar tempo, mas foi um sucesso porque quando chegava na hora da prova era só rever e porque todo santo dia eles tinham obrigação de ler a matéria.
Sobre a
Matemática Moderna no
Colégio de Aplicação
A experiência de estar lançando uma coisa nova no seio da Matemática, no meio do Colégio, isso pra mim era empolgante, né?!
Na parte de álgebra, veja só, juntamente com o livro que foi dado pelo professor Catunda, com a orientação do professor Catunda, por falta de materiais prontos, comecei usando no Colégio de Aplicação um livro que era uma tradução de um livro Americano6.
Isso aconteceu antes da experiência de professor Catunda e Martha Dantas, foi aí que eu introduzi esse livro, foi um achado pra mim, ele era coisa bem moderna, bem moderna mesmo e não tinha essa conotação de livro de 1o ano de ginásio, 1o ano de colégio 1o , 2o e 3o anos, não. Ele tinha todos os assuntos, e eu abordava os assuntos de acordo com a nossa programação.
Sei que era vermelho, o livro, e era grosso, a encadernação era muito boa. O grupo de alunos que eu introduzi esse livro, esse grupo foi um dos primeiros, pena que eu não tenha ninguém assim pra quem eu possa apelar à memória. Ele foi usado nos primeiros anos que eu ensinei no Colégio de Aplicação, não é dizer que no Colégio de Aplicação não existia, estou lembrando de quando eu estreei no Colégio de Aplicação com esses materiais, já depois que voltei para a Bahia.
Não era aquilo tradicional, era uma coisa que eu — não nego, não, — eu tinha que estudar, amadurecer... mas, eu amadurecia com eles, porque não havia tempo pra amadurecer. O Catunda, que era o pai da ideia, ele... como é que se diz, orientava essa proposta.
Esse livro quando nós estudávamos, por exemplo, a função, ele fazia pela translação, pela homotetia, mas “não dava os nomes aos bois”, então, eu carreguei comigo essas noções. Era um livro cujo autor eu não me lembro agora, mas ele estudava, primeiramente, por exemplo, a função identidade, depois ele fazia homotetia, era a questão linear, depois ele fazia translação, então, você tinha a função de 1o grau. A função de 2o grau, ele começava pela função, a função era a fundamental, era “x2”, depois ele fazia homotetia, quer dizer, ele fazia uma parábola... depois fazia homotetia de acordo com o coeficiente de A, ela abria ou ela reduzia, levando em conta o sinal. Depois uma translação, quer dizer, ela deixa de ter o vértice na origem e passa a ter para cima ou para baixo. Uma translação. Depois... dada uma função qualquer, como você trabalhar na função do 2o grau para descobrir que homotetia e que translações foram feitas da fundamental pra se chegar aqui...
Esse livro abriu muito a minha cabeça e abriu também a dos alunos. Depois é que eu fui casar que era uma homotetia, era uma translação, e a simetria também. Até simetria também. Tal função é obtida dessa forma... fazendo isso, fazendo homotetia, fazendo translação, depois simetria em relação ao eixo ou em relação ao eixo das ordenadas ou em relação a uma determinada reta... e aí pronto.
Simultaneamente a esse trabalho, existia lá em Porto Alegre uma professora que tava fazendo umas experiências, uma maneira de introduzir os assuntos, mas ela não teve o sucesso esperado por falta de estímulo para os professores...
Mas, esse livro, uma espécie de uma tradução de um livro americano, era... era uma coisa! Eu ficava encantada, a maneira não só como expunha, como ele introduzia a matéria, mas também a maneira como ele cobrava. Eu me lembro perfeitamente da maneira como ele cobrava, ele parecia... — porque americano tem essa... — parecia que era muito fácil no começo, depois que você ia ver o perigo que era a maneira como ele cobrava.
A experiência do uso desse material americano foi interrompida no Colégio porque veio o projeto de Martha, aí me convidaram para aplicar e eu aceitei. Era uma proposta diferente: começa que ela introduzia essas transformações basicamente na geometria; depois é que nós começamos a introduzir essas transformações na aula, na função e tudo mais, entendeu? Nesse livro que eu lhe falei antes não citava explicitamente as Transformações, não.
Depois de um tempo, como eu me dava muito com uma das autoras da equipe desse outro livro7, cuja autoria é de Omar Catunda, começaram a querer experimentar esses materiais, esse livro, e me confiaram. Então, eu acompanhei uma turma com essa apostila que era, vamos dizer assim, feita grosso modo. Nós trabalhávamos, eu e ela trabalhávamos, vamos dizer assim, à tarde e à noite e, de manhã, já estávamos aplicando. Foi muito assim “em cima da perna”, então, levei aqueles meninos até o terceiro ano. Lá eu tinha muita autonomia para agir, não tinha problema, não.
Eu estava comentando com a Neide (Clotilde Pinho e Souza), que na época em que esses materiais estavam sendo feitos eu já estava simultaneamente aplicando no Colégio de Aplicação.
Apesar deles não terem o material suficiente, porque se tratava de uma experiência, então você não encontrava aquela matéria em lugar nenhum, era só mesmo aqueles apontamentos feitos, folhas assim... que eu entregava pra eles e aquele material é que eles estudavam, que eles aplicavam. Depois é que foi feito uma apostila “grosseira” e depois é que eles fizeram um livro de editora, editora tal da Universidade. Mas foi feito inicialmente assim.
Antes dos livros tinha muito material mimeografado. Era assim: hoje eu sabia que eu ia dar certo assunto, aí na noite anterior eu preparava o stencil e no dia seguinte, enquanto eu estava dando aula, o material “estava batendo” 8. Em seguida, o rapaz levava para mim na sala e eu entregava para poder ter maior fixação, né?! Eu cobrava muito, mas muito mesmo deles. Eles ficavam “meio esticados” com tanta coisa, até porque o Colégio não era fácil, viu?! O Colégio puxava muito. A professora de História não deixava escapar, era Matemática de um lado, História de outro, Português do outro... cada um puxava para o seu lado.
Quando chegaram os livros onde foram dadas as Transformações, então encaixou, aquilo era apresentado num crescendo... Pode até ser que alguém dissesse: “Ah! mas eu achava que a outra maneira era mais simples, era mais imediata”; eu digo uma coisa: “mas aí você não teria, de maneira nenhuma, a visão de como aquilo se passava”. E isso depois se estendia para ensinar todas as funções, trigonométricas, logarítmicas, exponenciais...
Omar Catunda era o nosso coordenador, ele foi nosso diretor no Instituto de Matemática — não sei lhe precisar quanto tempo ficou na direção. Depois se aposentou, se afastou, mas continuou a orientar esse trabalho que Martha redigiu. Ele não ia mais, mas ele dava orientações. Nós nos reuníamos na residência de Martha e não tínhamos horário de saída, só de chegada. A gente ia se entusiasmando, a gente ia ficando, ficando... era lá na casa dela na Graça porque, na verdade, nós éramos funcionárias do governo e tínhamos esse privilégio de fazer esse trabalho, e como era difícil encontrar uma sala onde nós nos reuníssemos e tivéssemos tranquilidade total, ela puxou para casa dela.
Ela era a mais velha e puxou para casa dela. Mas, era mais rigorosa do que qualquer chefe de departamento, qualquer chefe de faculdade, ela era muito séria e nós retribuíamos, né?! Todo dia em vez de ir para outro lugar, íamos pra casa dela. O trabalho era feito lá.
Então, eu mesma não tenho assim aquela vaidade, aquela pretensão de ter feito... de aplicar método A, método B, meu negócio era... o meu intuito era estudar com eles, era fazê-los entender como eu estava entendendo aquilo, porque não tinha tempo nem de amadurecer. Eu... eu gostava da experiência em si, eu gostava! Mas, dizer que eu tinha conhecimento completo, eu não tinha nem... pra falar francamente, eu não tinha nem consciência de que a matéria seria dada para eles na universidade, mas, depois é que eu fui saber que era... que constituía a matéria de Geometria Analítica e, também da parte moderna, que eles já começavam comigo, não era na faculdade, não.
Eu não tinha total consciência do bem que a aplicação daquelas apostilas ia fazer porque... Quando eles entraram na faculdade já deslancharam, porque o vestibular para eles foi considerado facílimo e as matérias tinham a ver com a matéria que eu ensinei, que estava associada à Matemática Moderna.
Foi o professor Catunda que introduziu no Colégio de Aplicação a noção de Estatística, a noção de Financeira e a noção de Derivada, que não se usava, né?! Não se dava, não. No livro do 3o ano tinha Derivada, Financeira e Estatística. Não precisava ser com profundidade, mas uma espécie de apresentação e você vê que tanto valeu que entrou no programa do vestibular, não foi? Ele tinha uma visão muito além, apesar de ser uma pessoa de idade, ele tinha uma visão muito grande. Não precisava ficar se aprofundando em coisas que eles poderiam ver depois, não era essa a pretensão dele. A pretensão era que tivessem uma visão geral desses assuntos. Quem é que estudava Financeira antes? Nunca, nunca ouvi dizer, mas foi lá que foi introduzida Financeira, Estatística e Derivada. Derivada? Derivada no 3o ano! É uma coisa também que eles foram ver logo no começo do estudo de Cálculo, né?!
Eu falei da Geometria Analítica, que eles viram... translação, simetria e homotetia, mas a parte de Álgebra, a parte de Cálculo nós introduzíamos no 3o ano do Colégio.
Se você me perguntasse qual a principal mudança trazida pela Matemática Moderna eu diria que era a inserção do conteúdo, mesmo. Porque até então, mesmo quando eu estudei, não se falava em conjuntos, aquela teoria do conjunto todo... e lá no Colégio de Aplicação nós começamos a estudar todo conteúdo pela teoria dos conjuntos.
E isso mudou, inclusive, a maneira deles estudarem, não só no ginásio como no colégio, no colégio principalmente. Facilitou muito mais o aprendizado. Foi muito eficiente pra eles, em vez de ser aquele conteúdo tradicional. Nós estudávamos tudo, mas a maneira de introduzir, a maneira de cobrar também era diferente. Então, na minha maneira de ver, acho que facilitou pra eles terem estudado a parte da teoria dos conjuntos, né?! E como também as modificações na parte de Geometria, Geometria principalmente, facilitou muito.
O estudo da Geometria no Colégio era todo feito através da Geometria das Transformações. Eu sempre estudei formalmente os polígonos, quadriláteros... tudo, tudo através da simetria ou então da homotetia, até Geometria no espaço. Foi muito... abriu muito, sabe?! E abriu facilitando, não abriu complicando esses estudos, não, abriu facilitando. Com a maturidade e os conhecimentos anteriores que eu tinha isso só fez ajudar e pra quem não conhecia de outra forma era muito mais fácil aprender, muito mais fácil. De modo que pra mim foi muito gratificante.
Demonstrações a gente fazia tudo baseado nas Transformações. Mas, aí entrava um fator: a minha dificuldade de me adaptar, porque... eu estudei o processo tradicional, né?! E pelas Transformações era muito simples, às vezes, eles que puxavam... tiravam a conclusão mais rápido do que eu, porque eu tava “caducando já naquele assunto”, né?! Tava usando sempre coisas mais complicadas e pelas Transformações simplificava tudo.
O que foi um pouquinho chato para mim é que eu ensinava no Colégio de Aplicação e no João Florêncio Gomes. Dava vontade de levar essa proposta para lá também, mas não podia por causa do material. O material estava todo “preso” à proposta do Colégio de Aplicação. Não podia fazer. Então, eu fazia lá de uma forma e no João Florêncio de outra.
Eu não entendo a dificuldade que existiu de aplicar aqueles livros nos diversos colégios onde depois foram feitas iniciativas semelhantes. Acho que não tinha a ver com o Colégio de Aplicação. Mas, Dona Martha como parte do estudo sobre aquela proposta levou para outros colégios e foi bem difícil, não sei se falta de base, preparo ou mesmo coragem do professor para aplicar.
O que mais eu lamento é o Colégio ter acabado. Parece que a Universidade achava um desperdício que professores que recebiam um salário de professores da universidade estivessem trabalhando em um colégio de ginásio e, por conta disso, o reitor achou por bem fechar. Foi na época da professora Zilma (Parente de Barros). Foi ela que deu por terminado, né?! Foi na gestão dela que o Colégio acabou. Eu acho que a decisão foi de ordem financeira. Agora, se olhassem para o outro aspecto, para a sociedade, não tinha coisa melhor.
O retorno ao Ensino Superior
Já na Faculdade quando eu voltei... eu ensinei uma matéria que não existe mais, que era uma espécie de recuperação. Era assim: você entrava no curso de Matemática com uma nota de entrada no curso, com uma nota de Matemática fraca, aí a Universidade dava um “curso de recuperação”, em que me foi pedido para explorar Geometria, Trigonometria e... essas matérias assim, para ver se melhorava o nível, mas, não deu muito certo, não, porque não continuou.
Hoje em dia acho que entra pesado nas matérias de Cálculo, Geometria analítica... entra pesado, não tem mais isso, não, mas levou-se alguns anos, eu não sei se foram dois ou três anos com essa experiência. Esse curso, apesar de ter esse conceito: “ah, é recuperar os alunos que tiraram nota baixa, que não atingiram o certo nível em Matemática...” tive alunos que eram ótimos.
O curso se chamava Complementos de Matemática e era uma espécie de revisão do Curso de Científico para que os alunos enfrentassem melhor a faculdade. Mas, também tinha aquele aluno que já se achava capacitado para enfrentar a Matemática e tudo mais. Mesmo assim tinha que tolerar uma pessoa fazendo revisão, coisa que ele já tinha feito no cursinho, coisas muito melhores, talvez. Aí eu tive que fazer alguma coisa diferente, né?! Dialogar e discutir umas questões, botar uns problemas difíceis para resolver e tudo... mas, terminou.
Depois foi que eu comecei a ensinar disciplinas de Cálculo. Ensinei Cálculo 1, Cálculo 2, só não cheguei a Cálculo 3, nunca peguei uma turma de Cálculo 3, só Cálculo 1 e Cálculo 2.
Lembrando da Professora: memórias de ex-alunos de Maria Augusta
Segue a textualização de uns poucos trechos de entrevistas de ex-alunos da professora Maria Augusta no Colégio de Aplicação. Esses trechos são bem emblemáticos da atuação dela, reforçando as memórias dela sobre o trabalho que realizou ou indicando o modo como ela ficou marcada na memória deles.
Jaci Maria Ferraz de Menezes
9 Quando Maria Augusta começou a trabalhar com a nossa turma, eu acho que já na primeira unidade ela trabalhou com algumas apostilas com teoria de conjuntos. É uma lembrança fugaz — eu acho que era só para ela dar uma “agilizada nos conceitos”, no início.
Dona Martha (Dantas) era assim, aquela senhora imponente, sempre de salto alto, certo?! E que estava presente todo o tempo na vida do Colégio e... Maria Augusta era baixinha, um pouco menor, e, assim, ela é elétrica, “The Flash”. Ela entrava na sala de aula, ela não fazia mais chamada, então, ela deixou pra lá. “Bom dia, bom dia, bom dia...”, passava para o quadro de giz e passava uma lista de exercício e começava o trabalho, a fazer exposição e, depois, começava o trabalho todo, com exercícios, etc.
“Guguta” se lembra de uma resistência à implantação das atividades de Matemática por parte de uma colega que fumava — nós, na época, as meninas na sala, ninguém fumava na sala, era proibido, mas no intervalo podia fumar, nos corredores não tinha maiores restrições —, então, o pessoal tava na porta da sala esperando ela chegar aí, na hora que ela chegou, essa colega encheu o pulmão e soltou a fumaça no rosto dela. Ela ficou ofendidíssima, se sentiu agredida, ela se lembra até hoje! Ela perguntou pra mim dessa vez que a gente se encontrou, em dezembro do ano passado: “como era o nome daquela sua colega...” eu disse: “eu não me lembro, Maria Augusta”. “Ah, pois ela encheu o pulmão e soltou a fumaça na minha cara.”
Pense numa barreira, assim, uns três ou quatro, na hora dela entrar na sala... porque, justamente, esse pessoal tava que não aguentava mais a Matemática no regime linha dura de Maria Augusta. No ano seguinte eles passaram para o Clássico. Mas, ela fazia com muita naturalidade... não é livrando a cara dela, não, ela fazia com muita simpatia, ela dava aula, fazia, preparava... e o pessoal aprendia, tanto assim que eu que não sou do ramo ainda me lembro.
Anônima
10 Como é que a gente aprendia a demonstrar na escola? Não sei como a gente aprendia a demonstrar na escola, não sei, mas se você conseguir um livro da época, você pode ver que tudo tem demonstração, tudo tem hipótese, tese, demonstração. Se fazia, se fazia.
Outro dia eu perguntei a Maria Augusta: “Maria Augusta, como é que você enfiava aquilo tudo na cabeça da gente?” e ela respondeu: “também não sei, eu também não sei”. E a gente aprendia, a gente aprendia.
Não era Geometria tradicional, não, era com rotação, simetria, translação e a geometria plana era toda com base nas transformações lineares, nas transformações no plano. Maria Augusta era professora de Matemática que aplicava.
Tudo, tudo, tudo mesmo, que você possa imaginar em trigonometria, era dado. A gente saiu do Aplicação com Limite, Derivada e Integral, perfeita. Teoremas e tudo! Saí de lá completa. Eu saí do Colégio direto para a Universidade. Terminei em meia nove e, em setenta, eu tava cursando (Matemática).
Raimundo Mesquita de Luna Freire
11 Durante os meus sete anos no Colégio, somente em um deles, o segundo ano, é que eu tive uma outra professora, durante seis dos sete anos a professora foi Maria Augusta Moreno. Ela era uma das professoras que, junto com o professor Omar Catunda, desenvolvia aquela metodologia que a gente estudava.
O que eu me lembro é que ela era uma pessoa altamente comprometida, muito bem preparada, que sabia a matéria que ensinava e sabia transmitir. Eu imagino que ensinar aos meninos de doze, treze anos, você sendo uma professora que, inclusive, dá aula na universidade, isso aí exige uma habilidade específica e ela tinha. Então, ela tinha tanto conhecimento naquilo que ia ensinar quanto uma facilidade de transmitir.
Ela tinha uma didática muito boa. Era uma pessoa muito rígida e inflexível, que não dava essa abertura para contestar, nem pra tirar dúvidas, pelo menos essa era minha sensação, e era uma sensação generalizada, pelo que eu sei, não era só minha, não, era uma sensação generalizada, mesmo para tirar dúvida. Você tinha medo de dizer “não entendi, pode explicar...” claro que existia essa possibilidade, não era um regime ditatorial, mas tinha uma barreira grande que eu não tinha com outros professores, para você ver que não era uma regra da Escola, era uma coisa muito da personalidade dela, tinha professores até piores...
Outra coisa que eu tô me lembrando agora... a avaliação normalmente era um teste e uma prova a cada unidade, além disso, tinha um “testezinho” praticamente todo dia de aula, tinha um teste de uma única pergunta no início da aula. A gente tinha uma cadernetazinha, todo mundo tinha que ter uma caderneta dessa, então, no início da aula ela passava uma pergunta, só um problema rápido, que você tinha que resolver em dez ou quinze minutos e, aí, no fim da unidade, a soma desses vários pequenos testes valia uma nota também, igual à nota do teste e da prova. Acredito que era uma forma de obrigar a tá em dia com a matéria, né?!
Essa cadernetinha ficava com a gente. Era assim, você levava sua caderneta, ela passava o problema, você resolvia ali e entregava para ela na mesma hora. No mesmo dia ela devolvia, já com a sua nota, né, como era só uma questão, era “um certo”, “um errado” ou “um meio certo”, sei lá... mas ela devolvia no mesmo dia que você levava, então, só ficava com ela para corrigir. Foi o que eu disse, acho que a ideia era obrigar a ficar em dia com a matéria, para que você não acumulasse para a véspera da prova, né?! Você tinha que estar em dia com a matéria. Em geral, essas questões não eram questões muito difíceis, até porque você tinha pouco tempo para resolver, era mais objetiva mesmo, sobre o que tinha sido dado na última aula.
Valber Roberto Carneiro Carvalho
12 Quando chegamos na sétima série, sétima e oitava, nós tivemos o prazer de estudar, de sermos alunos de uma mulher... uma das autoras do livro que a gente estava estudando, você imagina o que significa isso? Maria Augusta. O livro era feito por oito pessoas, o primeiro, o mais famoso, um “matemático daqueles” chamado Omar Catunda, e ela era a última ou a penúltima. Rapaz, aquilo era um delírio pra gente, a mulher era uma das autoras do livro que a gente tava estudando!
Você conversava com gente, com seus colegas de outros colégios... o livro de Matemática que a gente estudava tinha nossa professora como uma das autoras!
As provas dessa professora, Maria Augusta, eram assim: “Considerando que existem duas retas paralelas que cortam outras duas retas — não sei o que lá... — e que o ângulo tal S1 é igual... congruente com o ângulo tal... prove que essa terceira reta que passa aqui é paralela também a essa duas”. Você tinha que provar por lógica geométrica. “Com efeito...” — a gente tinha que começar assim —, “com efeito, considerando-se que o ângulo tal é igual ao ângulo tal e que o teorema de não sei quem diz que quando duas retas se cruzam no ângulo tal pa-pa-pa... gera uma terceira reta não sei o quê...”
Então, para você responder aquilo você escrevia um catatau de treze linhas, justificando... até você provar por A mais B, por lógica, que aquele ângulo tal era igual ao ângulo tal. A prova de Matemática da oitava série, era assim, era uma prova muito difícil, tinha que escrever, que relacionar teoremas e gerar conclusões, lhe colocava para pensar.
Isso era a Matemática da 8a série! Isso mexia com a gente pra caramba e, confesso a você, tinha uma certa dificuldade, não era um terreno em que eu bailava... eu tinha que fazer uma explanação sobre a Matemática, porque que isso é igual a isso e porque isso é simétrico a isso. Eu tinha que usar a lógica, os teoremas, usar as teorias da Matemática pra chegar ao resultado desejado, entendeu?! Isso não era mole, não, você escrevia muito, você saía de cuca fundida das provas.
Ela inventou um sistema de avaliação em que o aluno tinha que estar presente no início da aula, você não podia faltar e não podia perder o início da aula porque havia um teste, ela chamava de miniteste ou “testinho”. Para ninguém “pescar” ela dividia a sala em quatro diferentes turmas com testes diferentes e, então, ela dava quatro exercícios, um para cada uma dessas turminhas responder, aí você respondia e ela recolhia em cinco minutos.
Quando você acertava recebia um “mais” e se errasse recebia um “menos”. A quantidade de “mais” que você tivesse era somada e aquilo gerava uma nota que ia ser combinada com a nota da prova, e aquilo era um terror de alguma forma, mas também te mantinha aceso, é como um piloto de avião que tem que fazer teste todo mês para saber se está bem. Só que era toda aula, e foi um período, muito, mas muito difícil, eu fui muito bem na sétima série, eu me lembro, em equações do segundo grau e sofri um pouquinho na oitava, que era Geometria.
Quando realizei entrevistas com ex-alunos do Colégio de Aplicação a professora Maria Augusta foi a professora que mais figurou como associada ao projeto de modernização da Matemática liderado por Martha Dantas e Omar Catunda.
As marcas que ela deixou na memória de seus alunos lhe deram um certo destaque, seja pelo grau de comprometimento com o ensino de Matemática, seja pelas mudanças que aquele projeto representou na formação acadêmica deles, repercutindo na trajetória profissional mesmo daqueles que não seguiram carreiras ligadas às exatas.
Enfim, este artigo trouxe memórias ligadas à trajetória profissional da própria professora Maria Augusta de Araújo Moreno e uma seção com recortes de memórias de alguns ex-alunos dela no Colégio de Aplicação.
Podemos concluir afirmando que com este trabalho se destacou um perfil de professores do IME que, desde o começo do Curso de Matemática, enfocaram sua atuação na qualificação do ensino de Matemática na Educação Básica baiana, que acompanharam o trabalho iniciado pela professora Martha Maria de Souza Dantas, nossa personagem mais renomada nesse campo de atuação do Instituto.
Bibliografia
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MORENO, Maria Augusta de Araújo. Entrevista. Salvador, 13 fev. 2012.
MORENO, M. A. A. Ficha Funcional. Salvador, Arquivo da Pró-Reitoria de Desenvolvimento de Pessoas da Universidade Federal da Bahia (PRODEP-UFBA). Acesso em 18 jun. 2026.
RIOS, D. F. Memórias de ex-alunos do Colégio de Aplicação da Universidade da Bahia sobre o ensino de Matemática Moderna: a construção de uma instituição modernizadora. 2012. 505 f. Tese (Doutorado em Ensino, Filosofia e História das Ciências) – Universidade Federal da Bahia, Universidade Estadual de Feira de Santana, Salvador, 2012.

Diogo Franco Rios é sergipano de família baiana do sertão. Possui graduação em Licenciatura em Matemática pela UEFS, mestrado e doutorado em Ensino, Filosofia e História das Ciências pela UFBA/UEFS. Pesquisador em História da Matemática e da Educação Matemática. Atualmente é docente em Colaboração Técnica no Departamento de Matemática do IME/UFBA. Coordena três projetos: Memórias da Matemática na UFBA, Cineclube de História da Matemática e Seminários de Educação Matemática, além de integrar o projeto de extensão PECMat. Canta, fotografa, escreve poesia e produz artesanato, como formas de expressão e autocuidado.
As entrevistas mencionadas ocorreram por circunstância da produção da tese: ‘Memórias de Ex-Alunos do Colégio de Aplicação da Universidade da Bahia Sobre o Ensino da Matemática Moderna: a construção de uma instituição modernizadora’’ (RIOS, 2012).↩︎
O Colégio teve outras cinco formas oficiais de identificação: Ginásio Anexo à Faculdade de Filosofia da Universidade da Bahia; Colégio de Aplicação da Faculdade de Filosofia da Universidade da Bahia; Colégio de Aplicação da Universidade da Bahia; Colégio de Aplicação Reitor Miguel Calmon e, por último, Centro Pedagógico Reitor Miguel Calmon, já vinculado à Faculdade de Educação da Universidade Federal da Bahia, após a Reforma Universitária, em 1968 (RIOS, 2012). Utilizaremos aqui Colégio de Aplicação ou somente Aplicação.↩︎
Atualmente, 3o ano do Ensino Médio, devido às mudanças na legislação educacional brasileira. No período anterior a 1971 o Ensino Secundário era dividido em Ensino Ginasial e Colegial. No CA essa última etapa da formação secundária possuía uma turma de Estudos Clássicos e outra de Científico.↩︎
O Instituto de Matemática e Física vai ser desmembrado em institutos distintos com a Reforma Universitária, em 1968. Em 2023 passa a se chamar Instituto de Matemática e Estatística, como o mencionaremos ao longo deste trabalho.↩︎
Outra escola de Salvador em que a professora Maria Augusta atuou.↩︎
A professora se refere ao livro de Matemática que foi produzido no âmbito de projetos que propunham reformar o ensino médio norte-americano, School Mathematics Study Group (SMSG). Além da Matemática, também circularam no Brasil livros desses projetos ligados a outras disciplinas, como Física, Biologia e Química (OLIVEIRA FILHO, 2009).↩︎
CATUNDA; DANTAS, et al., v. I, II, III, IV, 1971.↩︎
Uma expressão que era muito usada para se referir a fazer cópias de um documento no mimeógrafo, registrado originalmente no papel stencil.↩︎
Ingressou no CA em 1961.↩︎
Ingressou no CA na turma de 1963.↩︎
Ingressou no CA na turma de 1966. A entrevistada preferiu não ser identificada, preferindo a utilização deste pseudônimo.↩︎
Ingressou no CA em 1971 e teve que sair após a 8a série por não serem mais oferecidas novas turmas para o Segundo Grau (atendendo ao processo de redução de turmas em função do fechamento do CA, que se deu em 1976).↩︎