Epístola
Arte e Matemática
Caro Leitor,
Matemática, Arte e Ciência são campos do conhecimento humano que, embora distintos em seus métodos e objetivos, frequentemente se entrelaçam de maneiras surpreendentes e inspiradoras. Nesta edição da Revista de Matemática Hipátia, exploramos a interseção entre esses domínios, destacando como eles se complementam e se enriquecem mutuamente.
Na seção História, a professora Ana Lucia apresenta a primeira parte de uma série de dois artigos em que ela, mais do que traçar a evolução da fotografia e sua conexão com a ciência e a matemática, nos propõe uma reflexão sobre o papel das imagens, sejam analógicas ou digitais, como mediadoras entre o homem e a realidade, com todas as consequências sociais e políticas que isso acarreta. Ana Lucia, além de matemática de formação, está concluindo seu mestrado na Escola de Belas Artes da UFBA, o que lhe confere uma perspectiva única para abordar esse tema.
A relação entre Arte e Matemática é aprofundada na seção Didática, onde os autores (Maiara Santos e este editor) exploram como a arte pode ser uma ferramenta poderosa para o ensino da matemática. Após uma introdução aos principais elementos e princípios das composições geométricas, o artigo relata uma oficina realizada com estudantes de Seabra–BA, utilizando o software GeoGebra para reproduzir obras de arte concretistas e explorar transformações isométricas. Essa é a primeira vez que a Revista de Matemática Hipátia publica um artigo de pesquisa em ensino de matemática, pesquisa esta conduzida no escopo do PROFMAT/UFBA (Mestrado Profissional em Matemática em Rede Nacional/UFBA), reforçando nosso compromisso com a educação matemática de qualidade.
Na seção Técnica, o autor Armando Barbosa apresenta um método para resolver equações polinomiais de grau 3, utilizando as fórmulas de Tartaglia–Cardano. Não custa lembrar que o título do livro em que Cardano publicou essas fórmulas (gerando uma polêmica célebre com Tartaglia) é Ars Magna, ou seja, A Grande Arte, o que evidencia a fronteira tênue entre a matemática e a arte, ao menos no início da Idade Moderna.
Na tradicional seção Problema, apresentamos a resolução dos desafios da edição anterior, com destaque para as soluções enviadas por nossos leitores, e propomos novos problemas que certamente requererão engenho e …arte.
Trazemos uma retrospectiva das atividades realizadas pelo Departamento de Matemática (DMAT) da UFBA em 2025 na seção Simpósio. A seção destaca eventos de formação de professores, congressos científicos como o XVIII ENAMA e o X EPGMAT, encontros como o EMAT e o Seminário de IC, projetos de extensão como o PECMat (egressos), Café Cultural e o coletivo Ondjango Asili (jogos africanos), além de grandes eventos como a Semana Olímpica da OBM e as cerimônias de premiação da OBMEP e da OMEBA.
Para encerrar com chave de ouro essa edição recheada de arte e matemática, apresentamos a seção Fotografia, onde a professora Cristina Lizana apresenta algumas de suas belas fotografias, as quais manifestam um olhar artístico permeado por sensibilidade matemática.
Na capa desta edição, temos uma composição criada pelo professor Nicola Sambonet, na qual uma carta do matemático Euler, em que ele descreve o funcionamento de um conjunto de lentes, está sobreposta a uma fotografia (de autoria de Kenny Louie) de uma câmera Hasselblad. São muitas camadas de significado: um matemático quase cego descrevendo a ciência das lentes, muito antes da invenção de um instrumento composto de lentes, a câmera fotográfica, que é capaz de registrar imagens, como a imagem de uma câmera!
Salvador, 29 de dezembro de 2025.
O Editor